Artigos escritos sobre o Rio Grande do Sul

Curiosidades e contos gauchescos para o gaúcho que existe em você!

 

Como surgiu a expressão Tchê!

 Sotaques e regionalismos na hora de falar são conhecidos desde os tempos mais antigos. No Brasil também existem muitos regionalismos. Quem já não ouviu um gaúcho dizer: "Mas que barbaridade, Tchê"! Ou de modo mais abreviado "Mas que bah, Tchê"!  "Mas que bah"!  Ou mais ainda "Bah Tchê"!  Essa expressão, própria dos irmãos do sul, tem um significado muito curioso.


Para conhecê-lo, é preciso falar um pouquinho do espanhol, dos quais os gaúchos herdaram seu "Tchê".
Há muitos anos, antes da descoberta do Brasil, o latim marcava acentuada presença nas línguas européias como o francês, espanhol e o português. Além disso o fervor religioso era muito grande entre a população mais simples.


Por essa razão, a linguagem falada no dia, era dominada por expressões religiosas como: "vá com Deus", "queira Deus que isso aconteça", "juro pelo céu que estou falando a verdade" e assim por diante.
Uma forma comum das pessoas se referirem a outra era usando interjeições também religiosas como: "Ô criatura de Deus, por que você fez isso"? Ou "menino do céu, onde você pensa que vai"? Muita gente especialmente no interior ainda fala desse jeito.


Os espanhóis preferiam abreviar algumas dessas interjeições e, ao invés de exclamar "gente do céu", falavam apenas Che! (se lê Tchê) que era uma abreviatura da palavra caelestis (se lê tchelestis) e significa do céu. Eles usavam essa expressão para expressar espanto, admiração, susto. Era talvez uma forma de apelar a Deus na hora do sufoco. Mas também serviam dela para chamar pessoas ou animais.


Com a descoberta da América, os espanhóis trouxeram essa expressão para as colônias latino-americanas. Aí os Gaúchos, que eram vizinhos dos argentinos e uruguaios acabaram importando para a sua forma de falar.
Portanto exclamar "Tchê" ao se referir a alguém significa considerá-lo alguém "do céu".
Considerando uns aos outros como gente do céu.

 

A epopéia dos lanchões pelos campos gaúchos

Muito tempo antes do desenvolvimento dos veículos anfíbios, Garibaldi demonstrou que um barco construído para se movimentar na água também podia andar na terra. Graças a isso as tropas farroupilhas puderam conquistar o porto catarinense de Laguna e proclamar a República Rio-Grandense. Para chegar lá, o chamado "herói de dois mundos" teve que colocar em execução um dos mais arrojados planos militares já idealizados em qualquer época: estando as embarcações dos farroupilhas cercadas na Lagoa dos Patos, onde as forças do Império dominavam a entrada e saída, ele mandou deslocar por terra seus lanchões mais leves, o Farroupilha e o Seival. Foi uma epopéia digna de figurar com destaque na história dos conflitos mundiais.

"Não existe a menor dificuldade na expedição por mar a Laguna. Mande-me o general alguns carpinteiros e a madeira necessária para a construção de quatro grandes rodados e cem juntas de bois carreiros para a tração das rodas, e eu farei transportar os Lanchões até Tramandaí, se Deus quiser", disse Garibaldi numa reunião do alto comando farroupilha. Ele levou os dois lanchões até o rio Capivari cerca de dois quilômetros adentro antes de sua foz na Lagoa dos Patos, e em menos de sete dias comandou a montagem dos rodados e das pranchas sobre as quais os lanchões foram colocados, para serem movimentados por terra até Tramandaí. Eles foram puxados cada um por juntas de cem bois.

Em Tramandaí, após reparos rápidos que não levaram três dias, os lanchões foram lançados no rio Tramandaí e dali seguiram para o mar e para o ataque às forças imperiais que estavam acantonadas em Laguna. Entre o rio Capivari e o rio Tramandaí, através de campos, areais e banhados, foram percorridos cerca de cem quilômetros entre os dias 5 de junho pela manhã e a tardinha do dia 11 desse mês, sem que as forças imperiais tivessem a mínima suspeita do que estava acontecendo.

Em Laguna, enquanto os "patos" de Garibaldi atacavam por mar, os homens do general David Canabarro investiam por terra, conseguindo dominar rapidamente a cidade e conquistando um importante porto para os farroupilhas, que nunca conseguiram se apoderar de Rio Grande e São José do Norte.

Os lanchões Seival e Farroupilha deixaram o rio Capivari no ponto onde esse rio é cruzado, no momento, pela RS-040, cerca de mil metros antes do posto da Polícia Rodoviária em Capivari, que está no cruzamento dessa rodovia com o início da chamada Estrada do Inferno.
 

Para quem vai de Porto Alegre em direção a Capivari, há um marco logo depois da ponte sobre o rio Capivari, à esquerda, indicando o local considerado como o início da movimentação terrestre das embarcações do grupo comandado por Garibaldi.


Já no rio Tramandaí os lanchões voltaram a ser colocados na água nas proximidades da ponte antiga que liga Tramandaí a Imbé, onde na temporada de veraneio centenas de pessoas passam o dia pescando sardinhas e bagres. Na passarela para pedestres entre as duas pistas da avenida Fernandes Bastos, no lado do município de Tramandaí, há um marco indicativo do feito de Garibaldi, colocado, juntamente com o de Capivari, quando da comemoração do sesquicentenário da Revolução Farroupilha. Uma réplica do Seival ainda pode ser vista em Tramandaí, no Parque Histórico General Manuel Luiz Osório.

Por: Lígia Gomes Carneiro
 

História Porto Alegre

Porto Alegre teve sua origem em 1732 com o povoamento dos Campos de Viamão e de Porto Alegre por criadores e tropeiros vindos de Laguna, Santa Catarina. Vinte anos depois chegavam das Missões Jesuíticas os vanguardeiros da expedição de Gomes de Andrade. Eles se estabeleceram junto ao lago do Guaíba, lugar denominado de Porto de Viamão ou Porto do Dorneles, em terras do sesmeiro Jerônimo de Ornelas. Mais tarde o bispo do Rio de Janeiro cria a freguesia de São Francisco do Porto dos Casais, separada da freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Viamão.

Em julho de 1772 o Governador da Capitania do Rio Grande, José Marcelino de Figueiredo, determina que se faça a medição de 60 lotes de terras para casais açorianos que se chamava Porto de Casais. Nossa capital está entre as três cidades brasileiras com melhor qualidade de vida. Suas atrações naturais são seus parques. O Parque Farroupilha, ou da Redenção como é mais conhecido, é o mais central e é ali que acontece todos os domingos o Brique da Redenção, um verdadeiro comércio de antiquário e artesanato a céu aberto.

No centro, os visitantes poderão conhecer a Praça da Alfândega, onde é realizada anualmente a Feira do Livro, a Praça da Matriz, localizada na frente da Catedral Metropolitana, Assembléia Legislativa do Estado, Palácio Piratini, Tribunal de Justiça e o Theatro São Pedro. Outras atrações na cidade são a Casa de Cultura Mário Quintana, a Usina do Gasômetro e o Museu de Artes do Rio Grande do Sul.
 

 

A história da capital dos gaúchos

A cidade de Porto Alegre tem, como data oficial de sua fundação, a da criação da Freguesia de São Francisco do Porto dos Casais, em 26 de março de 1772. Mas o povoamento de Porto Alegre é anterior a essa data. A área foi ocupada por casais açorianos, trazidos para se instalarem na região das Missões, que estava sendo entregue ao governo português em troca da Colônia de Sacramento, nas margens do Rio da Prata. A troca havia sido acordada através do Tratado de Madri, de 1750.

A demarcação do território das Missões, entretanto, demorou a acontecer. Em 1752 o rei português mandou que Cristóvão Pereira de Abreu, com 200 homens, iniciasse a demarcação. Quando chegaram em Rio Grande — que então era a sede da Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul — foi determinado que oitenta deles ficassem nas proximidades de Viamão, construindo canoas que permitissem o transporte até as Missões, e que os demais explorassem a subida do rio.

Os casais açorianos se fixaram, aos poucos, nesse local, que passou a ser chamado de Porto de Viamão — primeira denominação de Porto Alegre. Durante vinte anos ficaram na área, sem receber as terras prometidas e vivendo de uma agricultura de subsistência. Levantaram casas de barro e aos poucos se estabeleceram em terras que pertenciam ao sesmeiro Jerônimo de Ornelas.

Em 1772, a povoação foi finalmente desligada da jurisdição eclesiástica de Viamão, por uma pastoral do bispo do Rio de Janeiro, oficializando-se, assim, a Freguesia de São Francisco do Porto dos Casais. Essa denominação seria mudada em janeiro do ano seguinte, para Nossa Senhora da Madre de Deus de Porto Alegre. Assim, a cidade nasceu antes do que se considera oficialmente, e resultou do fracasso da ocupação da região das Missões.

Ainda em julho de 1772, foram desapropriadas as terras em que a vila estava situada e se começou a marcação das primeiras ruas. Deu-se início à construção da igreja no Alto da Praia, atual praça Marechal Deodoro. Aos poucos, o lugarejo tomava feições de cidade. E, em 24 de julho de 1773, Porto Alegre passou a ser a capital da capitania, com a instalação oficial do governo de José Marcelino de Figueiredo.

A cidade iria evoluir rapidamente, sempre a partir de um pequeno núcleo que hoje constituí o seu centro. Em certos momentos, viveu episódios de tensão. Afinal, era a capital da capitania (depois província) mais meridional do Brasil, e que fazia fronteira com países com os quais houve diversos conflitos.

Mas o período mais prolongado de dificuldades da capital não foi devido a nenhum conflito externo, como a Guerra do Paraguai. Foi causado pela Revolução Farroupilha, que se iniciou com um enfrentamento realizado no dia 20 de setembro de 1835 na própria capital, nas proximidades da ponte da Azenha.

Com exceção dos primeiros dias, a capital gaúcha se manteria, durante os dez anos da revolução, nas mãos das tropas governistas. Mas era constantemente sitiada e os farrapos procuraram isolá-la ao máximo. A resistência a um dos vários cercos que sofreu nesse período é que lhe valeu o título, dado pelo Imperador, de "mui leal e valorosa".

Depois da Guerra dos Farrapos, a cidade retomou seu ritmo normal de desenvolvimento, permanecendo sempre no centro dos acontecimentos políticos e sociais do Estado e do país. Exemplos disto foram a ascensão de Getúlio Vargas, político gaúcho que se tornou um marco da história nacional, e o movimento da Legalidade, mantido pelo governo Brizola no início dos acontecimentos que conduziram ao Golpe Militar de 1964.

 

O Centro e a história da capital dos gaúchos

O Centro é a área de Porto Alegre que, por sua antigüidade, concentra a maior parte dos marcos históricos da Capital. Um passeio pelas suas ruas permite reconstruir a história de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul.

Na Praça Marechal Deodoro (Praça da Matriz), começou a história de Porto Alegre, com a sua primeira igreja. Ali também teve início a Revolução Farroupilha, graças ao exaltado pronunciamento feito por Bento Gonçalves na Assembléia Legislativa.

Pela Rua da Praia desfilaram as tropas gaúchas que participaram das maiores revoluções do país — como a Revolução de 30.

Na praça da Alfândega, o cais do porto marcava o ponto de contato do Estado com o resto do país e do mundo: até a década de vinte deste século, a navegação de cabotagem era o principal meio de transporte de cargas e passageiros. Na rua Professor Annes Dias, a Santa Casa de Misericórdia é um marco de quase dois séculos da medicina no Estado.

Essas histórias — e as estórias dessa história — estão traduzidas nos diversos edifícios do Centro. Há um precioso patrimônio arquitetônico a ser preservado. E que, por sua vez, é muito pouco conhecido pelos próprios moradores da cidade.

Na fachada da Biblioteca Pública há um raríssimo calendário positivista. E, no seu interior, salas cujas decorações homenageiam culturas tão diversas como a egípcia e a mourisca.

No cimo do Paço Municipal (a prefeitura velha), uma estátua da Justiça contempla os porto-alegrenses. Essa é uma das raríssimas estátuas da Justiça, no mundo, que não tem os olhos vendados — mas poucos sequer a vêem.

Na rua General Câmara (rua da Ladeira), na esquina com a rua dos Andradas (rua da Praia), um prédio em estilo art noveaux resiste, intacto, ao tempo. Sua porta, altamente ornamentada, sobrevive a consecutivas camadas de pintura com a mesma beleza que tinha quando foi inicialmente esculpida.

Exemplos como esse se multiplicam, em locais como a Praça Senador Florêncio (Praça da Alfândega), onde o Banco Safra ocupa um conjunto arquitetônico formado, antigamente, por uma farmácia e um cinema, e o Museu de Artes do Rio Grande do Sul e o prédio do Correio (correio velho, visto que há um correio novo logo atrás) formam um dos mais conhecidos cartões postais da cidade.

O próprio nome das ruas, praças e prédios se constitui em uma história à parte. O Centro é o lugar onde as denominações originais das principais ruas e praças se mantêm intactas, graças ao uso popular. A Rua da Praia, a mais central, é, na verdade, a Rua dos Andradas.

E é no Centro que está "A Paineira", assim denominada e aceita por todos os habitantes em uma cidade em que há milhares de paineiras, e que é um ponto de referência da rua Sete de Setembro.

Por outro lado, é no centro que se encontram alguns dos principais locais de irradiação cultural da cidade. Basta lembrar que ali estão o Museu Júlio de Castilhos, a Casa de Cultura Mário Quintana, a Usina do Gasômetro, a Biblioteca Pública, o Museu de Artes do Rio Grande do Sul e o Museu da Companhia Estadual de Energia Elétrica.

Fonte: Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul.

 

As Missões na história gaúcha:

     As planuras do poncho verde da soja, em pleno planalto rio-grandense, outrora foram terras cobertas por ervais, habitadas por índios guaranis, aculturados por padres jesuítas espanhóis, da Companhia de Jesus. Juntos construíram a história das missões. Cerca de 2.000 (dois mil) anos atrás, chegaram, ao Sul, os índios guaranis, provenientes das matas quentes e úmidas da Amazônia. Queriam eles garantir caça, pesca, terra fértil junto aos rios Paraná, Uruguai e Jacuí. Integrados à natureza, homens e mulheres dividiam as tarefas. Os homens faziam armas, protegiam o grupo, caçavam, pescavam, guerreavam e preparavam a terra para as plantações. As mulheres cuidavam do lar, da educação dos filhos pequenos, fabricavam utensílios de cerâmica, plantavam e colhiam. Eram eles os donos das clareiras, vivendo em aldeias formadas por ocas, estruturas de madeira e cobertas de fibras vegetais, tipo bendito. O seu interior abrigava todos os parentes, era a "grande família". O mais forte e generoso entre os chefes da família eram escolhidos para ser o Tubichá, o cacique. O Tubichá era muito respeitado e democrático. Suas decisões eram embasadas na opinião dos mais velhos e dos chefes de família reunidos num Conselho. As curas e magias eram ofícios de Caraí, que eram os sacerdotes feiticeiros dos guaranis.

     No final do século XV, a ambição dos espanhóis levou-os a descobrirem a América, em 1492. Logo após, na tentativa de reduzir as disputas por terras, portugueses e espanhóis fizeram um acordo, concebido como se a terra fosse tábua de mesa. Foi o Tratado de Tordesilhas, que dividia a América em duas grandes porções. Nessa época, ninguém sabia da existência do Brasil, mas, em conseqüência, nossas terras ficaram divididas. Grande parte do Brasil atual pertencia à Espanha, inclusive as terras do Rio Grande do Sul, o que só foi confirmado anos após, com a chegada dos portugueses em 1500.

     Na Europa, a Igreja Católica exercia grandes influências. A fim de combatê-la, surgiu então a REFORMA RELIGIOSA. A igreja reagiu e criou a CONTRA-REFORMA, promovendo mudanças, através da criação de novas congregações religiosas. Dentre elas, a Companhia de Jesus, em 1540, fundada por Inácio de Loyola. Com sua organização rígida, com disciplina quase militar, a Companhia forneceu catequizadores (padres jesuítas) para fortalecerem a presença da igreja Católica e contribuir na ampliação do Império Colonial. As primeiras visitas para converterem os índios foram chamadas de Missões, um tipo de catequese, que não trouxe os resultados esperados pelos padres jesuítas, pois os índios voltavam logo aos costumes da vida guarani. O governo espanhol precisava garantir a posse dos territórios conquistados e defender as fronteiras já estabelecidas, além de controlar a cobrança dos impostos. Foi por tais motivos que os espanhóis organizaram as reduções, em locais definidos para controle, defesa e catequização.

 A partir das reduções, os padres passaram a ter mais recursos para defender os índios da ameaça de serem escravizadas pelos bandeirantes paulistas e pelos comendadores espanhóis.

     Em 1607, foi criada a PROVÍNCIA JESUÍTICA do PARAGUAI, que se tornou a maior ação social e cultural de catequização de índios americanos. Os primeiros povoados missioneiros foram fundados pelo jesuíta Antônio Ruiz de Montoya, nas terras férteis do Guairá, território do atual estado do Paraná. Outros jesuítas chegaram ao Itatim, no atual Mato Grosso. A docilidade dos índios guaranis atraiu a cobiça e a ganância dos aventureiros, que vinham em busca de escravos. Para se protegerem das bandeiras de apresamento de índios, auxiliados e acompanhados pelos jesuítas, os guaranis abandonaram estas regiões e foram se estabelecer no TAPE, terras do atual Rio Grande do Sul.  

     Em 1626, o Padre Roque Gonzalez fundou a redução de São Nicolau, às margens do rio Piratini. Nos dez anos seguintes, surgiram dezoito novas reduções, dentre elas Assunção do Ijuí, Candelária e Caaró, onde o Padre Roque foi morto, em 1628. Tanto esforço e logo tudo é reduzido a nada. Os bandeirantes Raposo Tavares (1636), André Fernandes (1637), Fernão Dias Paes (1637/38) e Domingos Cordeiro (1638) chefiaram a agressão indomável dos índios tupis paulistas contra os guaranis, índios infelizes e impotentes no enfrentamento com armas de fogo.

     Em 1640, dá-se a RESTAURAÇÃO em Portugal. Os missionários conseguiram autorização do governo espanhol para armarem os índios com arcabuzes para poder se defenderem dos ataques dos bandeirantes. Os índios treinados e comandados pelos irmãos jesuítas derrotaram a Bandeira de Jerônimo Pedroso de Barros, em 1641, na batalha fluvial de M’Bororé. Assim, terminou o ciclo de investidas escravagistas, pois os guerreiros guaranis derrotaram quase dois mil bandeirantes. Mas as reduções do Tape ficaram arrasadas. Padres e índios mudaram-se para a margem direita do rio Uruguai, deixando o gado, que haviam trazido em 1634, graças a ação dos jesuítas Cristóvão de Mendonça auxiliada pelo Padre Romero. Nas pastagens naturais, o rebanho solto reproduziu-se livremente, dando origem à Vacaria do Mar, atual área da pecuária do RS e da República do Uruguai. Com a autonomia de Portugal, em 1640, ingleses, franceses, holandeses também foram atraídos pelas riquezas da América. O tráfico de negros para o Brasil foi intensificado. O Rio Grande do Sul despovoado e sem riquezas minerais, não despertava mais ambição dos paulistas. Suas cobiças foram voltadas ao descobrimento de matas e pedras preciosas. Por tais motivos, não houve mais bandeiras a devastar nossa região.  

Em 1682, os jesuítas e os índios começaram a retornar à margem esquerda do rio Uruguai, às terras do atual Rio Grande do Sul, fundando os Sete Povos das Missões. Foram eles:

               ● São Francisco de Borja (1682); - pelo Padre Francisco Garcia

               ● São Nicolau (1687);

               ● São Luiz Gonzaga (1687);

               ● São Miguel Arcanjo (1687) foi a capital;

               ● São Lourenço Mártir (1690);

               ● São João Batista (1697); foi fundada pelo músico e arquiteto Padre Antônio Sepp, que por ter sólida instrução de música vocal e instrumental, o que lhe deu grande destaque como músico. Os instrumentos de sua orquestra foram feitos por ele e seus discípulos. Extraiu o primeiro ferro das Missões, fazendo instrumentos de toda espécie, bem como os sinos do seu povo. Sua obra-prima foi o relógio da torre da igreja que, ao dar as horas, fazia desfilar, pelo mostrador, as imagens dos doze apóstolos.

               ● Santo Ângelo Custódio (1706).Antes de fundarem cada aldeia, os jesuítas cuidavam para que a escolha recaísse em lugares altos, de fácil defesa, com matas e água abundante. Com alguns índios, iniciavam as plantações e as construções provisórias. Quando as lavouras já estavam produzindo, vinham as famílias, que começavam a erguer as casas projetadas pelos padres. As povoações cresciam em quarteirões regulares, conforme a arquitetura e o urbanismo típicos dos espanhóis, e idealizado pelo Padre Roque Gonzáles, muito antes de morrer. Com o trabalho coletivo dos índios e a coordenação geral dos jesuítas, surgiram os "30 Povos das Missões", em áreas que hoje fazem parte do Brasil, Argentina e Paraguai. A etnia dos Sete Povos foi constituída basicamente pelo índio Guarani, do grupo Tape. Muitos dos costumes guaranis foram submetidos ao rigor da orientação religiosa, desestruturando a vida das famílias indígenas.

            

   O plano urbanístico de cada redução estava assim constituído:

     - Toda a redução tinha a praça como centro e a igreja como prédio mais importante. Junto à igreja ficavam a residência dos padres, o colégio, as oficinas, o cemitério e o Cotiguaçu. A casa dos caciques e o Cabildo contornavam a praça.

     - O edifício mais suntuoso, mais vistoso era o TUPÃ-OGA, a CASA de DEUS, ou seja, a igreja, que cada povo esmarava-se para fazê-lo mais importante.  

     - Na frente da igreja, estendia-se a enorme praça, onde as festas, torneios, exercícios militares se realizavam. Cercavam a praça, em fileiras paralelas, as casas do povo, todas uniformes, feitas de pedra, com alpendres e cobertas por telhas. Tais casas abrigavam a "grande família", conforme a tradição indígena. O alpendre de uma casa juntava-se com a da outra, permitindo voltear um quarteirão sem tomar sol ou chuva. As casas não tinham janelas, mas tinham de 6 a 8 portas de cada lado, determinando tantos quartos, que eram necessários para cada família. As divisões internas eram feitas com couro ou esteiras, se necessário.

     - Os indígenas dormiam em redes de algodão, que serviam também de cadeira, quando não estavam em cadeiras de madeira ou ainda de cócoras ou no chão.

     - Num dos lados da igreja, estava o cemitério, em geral a oeste. Ao lado deste, ficava o COTIAGUAÇU, a casa grande, que abrigava as viúvas, as mulheres sozinhas e os órfãos sempre numerosos devidos às constantes guerras com os portugueses e amparados pelas famílias.

     - No outro lado da igreja, ficava o colégio, em alas, abrigando-se, entre elas e a igreja, um grande pátio cercado por alpendre, onde era ministrado o ensino. No colégio, só estudavam os meninos filhos de caciques e administradores; as meninas aprendiam "prendas domésticas". Ao lado do colégio, ficavam as oficinas, que ladeavam também um grande pátio cercado de alpendre, onde trabalhavam os artistas.

     - As casas públicas, iguais às particulares, como depósito de mantimentos de armas, a casa dos caciques e do cabildo. O Cabildo ladeava a rua central e era a sede da administração municipal, uma espécie de Prefeitura Municipal.

     - Na enfermaria, localizada ao lado do cemitério, atendiam-se os doentes em estado mais grave ou que apresentavam perigo de contágio. Os doentes comuns ficavam em suas próprias casas, onde os enfermeiros os visitavam duas vezes ao dia.

     - Os índios eram enterrados no cemitério, os jesuítas ficavam enterrados na igreja, junto ao alto mor. Atrás da igreja, os padres mantinham a horta, o pomar e o jardim.

     - Nos locais de água, a população construía fontes de pedras para se abastecer, lavar a roupa e tomar banho.

     - Na periferia da redução ficavam os TOMBOS, onde se hospedavam os visitantes, para evitar o contato direto dos índios com os estrangeiros. Era a hospedaria, o hotel da época, nas missões.  

     - Os guaranis das missões deviam respeitar o rei espanhol e pagar os impostos, através de serviços prestados, construindo fortificações e defendendo o território. Estavam subordinados aos governos de Assunção e Buenos Aires, que exerciam uma fiscalização rigorosa. Em cada redução havia apenas dois padres, um cura e um auxiliar, para coordenar todas as atividades.

          - Como previam as leis espanholas, os índios deviam trabalhar quatro dias na semana no ABÃ-BAÉ a "Terra do Homem", terras particulares, que garantiam o sustento da família. Outros dois dias eram dedicados ao TUPÃ-BAÉ, a "Terra de Deus", terras coletivas, que produziam alimentos para quem trabalhava no campo. Parte da produção do TUPÃ-BAÉ era trocada por mercadorias, que não eram produzidas nas reduções. Uma por ano, uma barca levava para Assunção a Buenos Aires o excedente comercializado pelos jesuítas.

     - Os bois e os instrumentos, que utilizavam na agricultura eram sempre de TUPÃ-BAÉ.

     - Os índios cultivavam milho, mandioca, abóbora, algodão, cana, hortaliças, árvores frutíferas.

     - A criação de gado fazia-se em estâncias longe dos povos. A propriedade era sempre da comunidade. A estância de São Miguel era Santa Tecla, no atual município de Bagé, distante quase 600 km, São João, no Tupanciretã, e outras. Nessas estâncias também se criavam cavalos, ovelhas, cabras, porcos, galinhas.

     - Os índios também se serviam do leite, couro e sebo. Estes últimos eram muito cotados na época.

     - Em 1709, os jesuítas fundaram a VACARIA dos PINHAIS, em terras do atual município de VACARIA.

     - Música, canto, dança, teatro, desenho, pintura e escultura foram os recursos usados pelos jesuítas, como apoio à catequese. Desde pequenos, alguns índios aprendiam a tecer e a fabricar instrumentos musicais com cópias originais européias.

     - Os guaranis tinham capacidade para criar, para copiar. Eram escultores, cantores, músicos, impressores, pedreiros, ferreiros, cujos trabalhos evidenciam a presença dos traços culturais indígenas na produção.

     - Nessa época, não havia fábrica, mas oficinas e todos trabalhavam sob a orientação de um mestre. Os guaranis tiveram, como mestres, muitos jesuítas de formação sólida, nas ciências e nas artes. Entre eles, destacamos o Padre Antônio Sepp, quem incentivou a música, a botânica, iniciou a fundição de ferro; o padre José Brasanelli, arquiteto e escultor; o Padre João Batista Primolli, responsável por grandes obras, como a igreja de São Miguel Arcanjo. Imprimiram livros, criaram esculturas, pinturas, relógios de sol, sinos.  

          - O ferro extraído, no povo de São João Batista, foi uma iniciativa do Padre Antônio Sepp, inclusive sua fundição serviu para a fabricação do sino e do relógio da igreja, por ele mesmo fabricado.

     - Nos Sete Povos das Missões, extraía-se erva-mate, ferro e madeira. A erva-mate era buscada a grandes distâncias como na Serra de Botucaraí, na área do atual município de Soledade e na mata do Uruguai. Logo, os índios aprenderam a fazer mudas e plantaram grandes ervais.

     - A madeira era extraída para o uso do povo e com ela foram feitas muitas obras de arte como imagens, candelabros e outras.

     - Os índios Guaranis das Missões vestiam-se conforme a orientação dos padres jesuítas.

     - As roupas de uso comum eram feitas pelas donas de casa. Umas faziam o fio, outras teciam. Todas confeccionavam as roupas para o uso doméstico. As melhores confecções eram reservadas para as viúvas e órfãs.

     - O sacristão confeccionava as alfaias da igreja.

     - Homens e mulheres recebiam, em princípio, um traje por ano e as crianças dois. O tecido e o corte eram uniformes.

     - Os homens trajavam um gibão e culote, semelhantes à roupa dos espanhóis e, por cima, uma blusa de pano branco (o poncho dos gaúchos). As mulheres trajavam um vestido sem mangas, que descia até os calcanhares, chamado de TIPOY, amarrado à cintura com CHUMBÉ. Não havia pessoa andrajosa nas missões.

     - Os índios não se acostumaram ao uso de meias e sapatos, usando - os forçadamente somente em ocasiões especiais.

     Nas missões, todos tinham funções, inclusive velhas e crianças. Além do trabalho na terra, produziam, nas oficinas, instrumentos, utensílios e roupas. Inclusive os teares ocuparam as oficinas, servindo-se da lã e do algodão como matéria prima. Aos domingos, a população era despertada por tambores e todos assistiam à missa. Durante à tarde, todos participavam de teatros religiosos, organizavam jogos e danças. Nos dias de festa, a orquestra tocava. Uma vez por mês, os guerreiros desfilavam armados e faziam exercícios militares, ou seja, de guerra. Enquanto floresciam os Sete Povos no noroeste, o litoral era gradativamente ocupado pelos portugueses. Portugal e Espanha renegociavam suas posses.

     Em 1750, o Tratado de Madrid determinou novos limites na área do estuário do Prata. Tal acordo causou grande descontentamento entre índios, provocando a GUERRA GUARANÍTICA, de 1754 a 1756, liderada por Sepé Tiarajú. A guerra não resolveu as questões de limites, mas fez com que Portugal e Espanha voltassem atrás nas suas decisões. Mas já não existia mais entusiasmo como antes, nem mesmo a condição de vida era as mesma.  

     Na Europa, cresciam as pressões contra a igreja e os jesuítas foram acusados de liderarem a Guerra Guaranítica. Com as manobras políticas, os padres acabaram sendo expulsos dos territórios da América, em 1767, quando Carlos III, rei da Espanha, assinou o decreto. Em 1768, terminou o apostolado jesuítico nas missões. Os jesuítas foram substituídos por curas de outras congregações e por administradores civis. Assim terminou a prosperidade dos celebrados aldeamentos, acabando-se a tranqüilidade e o bem estar dos guaranis. Começou o êxodo. Em 1801, a população era muito pequena na região.

     Dos Sete Povos das Missões e as reduções, que existiram no Rio Grande do Sul, restam hoje vestígios de São Nicolau, São Lourenço Mártir, São João Batista e São Miguel. sendo este declarado Patrimônio Histórico da Humanidade, pela UNESCO, em 1983, além do grande acervo de imagens missioneiras, no Museu das Missões em São Miguel das Missões. Estudar as Missões e as Reduções é reconhecer os marcos que ficaram na face da América. O sangue guarani ainda corre vivo nas lendas, na linguagem, na medicina de ervas, nas cuias de mate, que ganharam grande importância sócio-econômica em todo o Sul. E, principalmente no fato de a criação de gado, introduzida pelos jesuítas, ter-se tornado basicamente na economia gaúcha. A história das missões é uma das raízes da cultura regional gaúcha, que faz parte de variedades de culturas, que integram a identidade brasileira.

 

MARIA IZABEL T. DE MOURA
VICE-PRESIDENTE DE CULTURA

 

Bibliografia:

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História do RS

SCHMITT, Adalberto
Estudos Rio-Grandenses

LAZZAROTTO, Danilo
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QUEVEDO, Júlio
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História Compacta do RS
 

MOREIRA, Igor
Estudos Sociais

ARAÚJO, Rubens Vidal
Os Jesuítas dos 7 Povos

FLORES, Moacyr
História do RS
Colonialismo e Missões Jesuíticas

BRUXEL, Arnaldo
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Uma História de 300 Anos – Missões
Ministério da Cultura - 1990

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Conquista Espiritual